Entrevista: Túlio Bambino (concedida originalmente para o blog "Uma visão BDSM)

Túlio Bambino é aquele sujeito que você pode chamar de "boa praça", de trato fácil e um cineasta que, mais do que fazer filmes, ama o que faz. Foi ele quem "cometeu" o documentário "Algologania" um mergulho no mundo BDSM que foca, com grande mérito, as pessoas, suas concepções, enfim, o porquê de estar no universo do BDSM.

Carioca, físico de formação, graduado pela Universdade Estácio de Sá em cinema, percussionista, além de Algologania, agora lança Bar A.K.A.  que aborda um dia em um bar fetichista.  Na entrevista à seguir, concedida por e-mail, Túlio nos fala sobre seus planos, conceitos e sobre como foi fazer esse documentário sobre o BDSM.

P.: Túlio, me parece que Algolagnia é o primeiro documentário brasileiro que aborda o BDSM. Estou enganado? Tem conhecimento de algum outro.

Até onde eu sei, tem coisas de TV, tipo Otávio Mesquita e congêneres. Os programas de TV a cabo também produziram coisas ligadas mais a fetiche, a sacanagem da coisa em si, sempre reduzindo muito o horizonte do jogo de sedução ligado ao BDSM. Enfim, no Brasil eu desconheço trabalhos documentais voltados ao BDSM.

P.: De onde surgiu a idéia para fazê-lo? Você tinha algum contato anterior com o BDSM?

Outro dia mesmo eu estava conversando sobre memórias e meio que apareceu esta conversa, o mais longe que cheguei foi em “Pulp Fiction” o Marcellus Wallace é sodomizado pelo Gizmo, lembro que esta cena durante bom tempo foi dada como surreal, um cara vestido de couro dos pés a cabeça, dentro de um caixote nos porões de uma loja de penhores: loucura total do Tarantino! Levei anos pra entender aquilo. É bizarro, mas não é surreal.

A idéia do filme veio agregada a pesquisa de um roteiro de ficção. Eu queria escrever um roteiro sobre um casal que estaria tentando salvar a relação através de jogos eróticos, meu conhecimento sobre SM, nem o BD eu conhecia nesta época, se reduzia a chicotes e correntes, com isso o roteiro tava fadado ao lixo, lá pelo sexto tratamento resolvi pesquisar e caí na rede. Conheci a Senhora Maga e o que seria uma pesquisa se transformou em documentário. Ah sim, o roteiro de ficção continua parado.

P.: Uma das características mais marcantes , ao meu ver, do Algolagnia é apresentar os praticantes do BDSM como pessoas comuns e que têm clareza da legitimidade da sua prática. Essa característica já estava pensada enquanto você estava escrevendo o roteiro ou foi conseqüência da vivência com essas pessoas?

Bem, uma coisa que eu me preocupo bastante na realização de um filme, seja ele qual for, é o chamado Dispositivo, que vai além da noção de roteiro, muito além. Pois embute tanto a parte de realização do filme em si, quanto a parte de logística do filme. Quanto menos recursos se tem, mais isso deve preocupar quem realiza filmes independentes. Um exemplo que talvez deixe claro é o filme do Eduardo Coutinho: “Edifício Master” que trata sobre moradores deste prédio, com depoimentos tomados em um determinado tempo e depois editados na seqüência cronológica real dos eventos. Não vale colocar trilha sonora, nem nada que não tenha sido captado pela equipe. Enfim, por aí vai. Em ficção também posso lembrar do movimento “Danish” Dogma 95, assinado pelo Thomas Vintenberg e o Lars Von Trier, em que os filmes “Os Idiotas” e “Festen” são bons exemplos do que eu quero dizer, os caras criam regras antes e as seguem para realizar o filme. Coisas simples a priori que depois se mostram complicadas de não serem quebradas.

Voltando ao meu filme, a idéia era simples, investigar as representações de amor e inferno junto a este grupo bizarro, e por bizarro entenda algo mais amplo, algo além dos padrões de certo e errado da representação dominante da nossa moral ocidental. Com isso eu contei com 5 questões básicas que poderiam ser desdobradas de acordo com a fluência da entrevista e a idéia de entrevistar todas as pessoas num mesmo lugar, o “dungeon” da Senhora Maga. Simples e eficiente. Combinei com as pessoas que me interessava pelas personas e não em suas identidades e isso definiu enquadramentos em big closes e desfoques, pois todos estão incógnitos no filme por razões distintas. Comecei as filmagens por volta de maio de 2006 e esperava ter as imagens todas em junho, editar em julho e lançar em agosto. Todavia, “shit happens” e a gente se adaptou, alguns depoimentos foram tomados na minha casa, não consegui captar todas as sessões que eu havia previsto e só consegui terminar o filme em novembro daquele ano.

P.: O fato de não enfocar prioritariamente as sessões (apesar de haver algumas na cópia que assisti), chegou a decepcionar algum praticante ou curioso?

Uma coisa tão certa quanto a morte é a incapacidade de agradar as pessoas que se sentam pra assistir um filme, todo mundo vai reclamar de algum aspecto da produção. Portanto o lance é colocar o coração e, no caso de um documentário, me preocupar com o registro honesto da história e dos personagens envolvidos, me preocupo sempre em dialogar com as pessoas envolvidas, apesar de no final saber que a assinatura e responsabilidade do filme são minhas.

Tem gente que gostaria de ver atores Globais sendo sodomizados pelo time de Volei Feminino de Praia da Suécia, a estes indico os filmes da “Ruberella” ou o site da Insex, documentário sempre vai estar logado aos ovos que estão na minha cesta, além deles eu não posso ir.

P.: Nós sabemos que para fazer um filme, seja de ficção ou documentário, é necessário uma equipe técnica. Qual foi a reação dessas pessoas ao gravar as sessões que compõe o filme? Houve dificuldades? Como foram superadas?

O lance é saber que uma vez na chuva o certo é sair molhado. Pode até pintar uma coceira aqui e ali, mas se você está concentrado e disponível ao universo que está investigando, não cabe melindres. Eu gosto de equipe mínima e as pessoas que escolhi para me ajudarem, não poderiam ser melhores. Durante o tempo de realização do filme, acho que eles sofreram muito mais fora do set com minha conversa do que nas filmagens, eu fiquei muito chato divagando com minhas teorias de representação do corpo, teorias “Queer”, Barthes e Foucault. Além é claro de Dante, meu companheiro de idas e vindas ao Inferno.

P.: Eu gostaria de que você comentasse algo que, visto de fora, pode se constituir uma dificuldade que é a questão de pensar a preservação da identidade e mais, da intimidade das pessoas envolvidas. Apesar desse cuidado ser notório, como foi o processo de "negociação" para que essas entrevistas fossem concedidas?

Eu devo agradecer muito desta negociação a Senhora Maga, ela me deu um “cheque em branco” e eu o usei para negociar com as pessoas envolvidas no filme. Sem ela o filme não existiria. Uma vez indicado por ela, uma conversa prévia trouxe as pessoas para o filme. A maioria já chegou disponível, as poucas desconfianças que pintaram foram elucidadas, principalmente com o material bruto que teve o cuidado de manter as identidades resguardadas plenamente.

P.: Apesar das novas tecnologias baratearem o custo de produção, fazer um documentário nunca é tão barato. Como é que você conseguiu financiamento para um filme com essa temática? Houve apoiadores ou tudo saiu do seu bolso?

Tudo saiu do meu bolso. Alguns lanches a Senhora Maga bancou, ela cozinha muito bem.

P.: Como a experiência de filmar Algolagnia te afetou pessoalmente? Houve alguma visão que você tinha anteriormente que foi superada ou que foi afirmada? Qual é o conceito do BDSM que surgiu à partir dele? Poderia compartilhar conosco?

Eu costumo ter um mote: “Nada que é humano me surpreende”. Tento manter isso em mente quando entro nessas aventuras de pensar e de filmar. Com certeza esse mote é posto em cheque todos os dias nas leituras de jornal, muito mais do que na realização de um documentário sobre sexualidade. Alguns preconceitos caíram, o mais divertido deles era a idéia de que seríamos abduzidos em uma sessão por “Dommes” satânicas e escravos malditos. Assim como dizemos que de perto todo mundo é maluco, de longe todos são normais. Uma outra brincadeira da equipe era o fato de não sabermos quem seriam os entrevistados do dia, perigava então encontrar um parente ou conhecido no set. Ia ser engraçado descobri um Professor ou uma Tia numa sessão destas.

Com relação a conceituação, essas coisas são dinâmicas e se movem na minha cabeça, uma delas é de que o sexo BDSM é Aristotélico, ele não dá lugar a fantasias, pois estas são sempre colocadas em prática. Mas e aquilo que sobra no mundo das idéias? O irrealizável, mas mesmo assim desejável o que é? O desejo de morte é uma coisa que aterroriza e fascina e acho que isso pode ser uma coisa bastante interessante no que diz respeito a realização de textos e filmes.

P.: Por razões óbvias seu documentário tem uma "cara" bastante carioca, em uma cidade que tem uma concepção própria e até certo ponto diferente da do pessoal SM de São Paulo por exemplo. Como seu documentário foi recebido nos grupos SM fora do Rio?

Acho que por não ser do meio BDSM, o filme passou uma cara honesta e não bairrista. Acho que abordamos questões gerais que são comuns ao humano e não ao lugar. Eu gostaria muito de fazer algo ligado ao Brasil, mas aí eu teria de ser financiado, não tenho condições de bancar algo assim sozinho.

P.: O "Algolagnia" foi premiado. Gostaria que você falasse um pouco da "carreira" do filme.

O Algolagnia teve uma carreira muito legal, mas ele teve uns problemas que eu poderia ter evitado. Um deles é o tempo de duração, quase 30 minutos, um média metragem não tem muito espaço. Além disso eu errei em lançá-lo com data de 2006, apesar de te-lo finalizado em novembro deste ano, o certo seria dar a data de 2007. Ele esteve em festivais de cinema e vídeo pelo Brasil, Santos, RS, SP, Brasília, Vitória, Fortaleza, MA e RJ. Além disso teve exibições em Portugal e NY. Entrou em Festivais importantes na Mostra competitiva: Vitória, MixBrasil, Santa Maria, Mostra do Filme Livre entre outros. Ganhei premio de melhor direção no festival da diversidade sexual de Fortaleza o For Rainbow. Agora eu já coloquei uma versão dele no YouTube onde ele e seus traillers e teasers tem quase 200 mil hits. O filme mais do que se pagou. Apesar deu não ter ganho nem um tostão com ele.

P.: Você tem algum projeto para um "Algolagnia 2"? Poderia nos antecipar algo?

Eu tenho vontade de realizar mais um DOC e uma ficção dentro deste tema, mas teria de ser algo com um patrocínio estrangeiro, pois acho impossível descolar apoio para filmes nesta temática nessa quermesse. Eu gostaria de fazer uma versão focando a dominação masculina, resta encontrar os corajosos que possam ao menos ceder suas personas para realizar este filme. Sem personagens é impossível fazer este filme. Quem se habilitar pode me procurar!

P.: Vamos para um lugar comum mas imprescindível: primeiramente, agradecer muito a gentileza em conceder essa entrevista e depois, você tem um espaço para dar um alô a nossos leitores.

Eu gosto muito de falar sobre filmes, falar sobre o que eu fiz então é pleonasmo, eu gosto mesmo. A oportunidade e a confiança que tive dada por pessoas do meio BDSM foi imensa, tive a oportunidade de conhecer e fazer algumas amizades bastante sinceras. Agora eu realizei um curta experimental com apoio de pessoas do meio, o filme é bem ousado tanto em dramaturgia, quanto em realização de imagem, já estou distribuindo para festivais e ele se chama Bar AKA, é sobre um ponto de encontro de fetichistas. Um bar onde as pessoas se reúnem para assistir uma performance e depois irem para a noite. A idéia é mostrar gente “estranha” fazendo coisas comuns. Espero que as pessoas curtam.

NÃO DEIXEM DE VER:

TEASERS E MATERIAL ON LINE "ALGOLOGANIA"

http://www.youtube.com/watch?v=DQqEt-iJVWk
http://videolog.uol.com.br/video?277250
http://www.youtube.com/watch?v=k_kDXFCNFXU