SSC, SSS e RACK: Uma reflexão (Mestre JB)
October 18, 2008Quando iniciei-me no BDSM e práticas afins, lá se vão já cinco anos, foi-me apresentada o que, jocosamente, chamo de sopa de letrinhas, ou seja, os princípios (ou alguns deles) que considero norteadores da prática no nosso meio.
Na época, como muitos, eu pensava que o Dominador era aquele que tinha poderes ilimitados dentro da nossa forma hierárquica e quase monárquica das estruturas de poder. No entanto, logo me avisaram que a monarquia não era absolutista, era constitucionalista, através do SSC , São , Seguro e Consensual.
Confesso que não tive qualquer dificuldade em entender o que significava isso mas fiquei pensando o porquê de tal necessidade de estabelecê-lo. Afinal, parece-me total e completamente razoável que a preocupação com a sanidade e a segurança fosse uma constante na relação que se estabelecia entre Dominante e submisso, ou seja, nas relações D/s.
No entanto, existem coisas sábias nesse mundo: logo aconteceu um rumuroso caso (que não convém resussitar aqui) para ver que, como dizia Voltaire, o bom senso não é algo tão bem distribuído como se imagina. Recentemente, ao ver outro caso rumuroso, o das violências da patroa contra uma garota em Goiania, vi que a margem que separa a violência do BDSM é algo não tão grande quanto se imagina.
Ver aquela menina amarrada na janela, como um bom bondagista faria, com a boca tapada com silver tape me fez pensar que há a necessidade , de fato, de um estatuto que defina com clareza essas fronteiras, não para qualquer um mas para nós mesmos.
E aí vai uma outra questão: de que forma essa "normatização" deve ser feita. Isso não é uma preocupação nova e nem se quer original, ao contrário. Já nas listas da USENET americana, onde surgiram e foram discutidos e definidos muitos desses princípios, houve uma frenética discussão que acabou consagrando o SSC como uma forma razoavelmente consensual de se pensar a questão.
No entanto, mesmo consagrada, essa definição mereceu algumas críticas, observações mais ou menos razoáveis aqui e lá fora e gostaria de destacar duas: o RACK e o SSS.
A sigla RACK significa Risk Aware consensual Kink, traduzindo literamente, Perversão Consensual com riscos determinados (ou conhecidos). Tomando como base a definição encontrada na Wipikedia , versão em inglês (http://en.wikipedia.org/wiki/Risk-aware_consensual_kink) , vamos esclarecer o que significa cada um deles:
- Risk-Aware (determinação de riscos): Ambos, ou todos o parceiros, estão bem informados dos riscos envolvidos na atividade proposta.
- Consensual: Conhecido esses riscos, ambos ou todos os parceiros, de espontânea vontade, oferecem um consenso preliminar para realizar a dita atividade.
- Kink (perversão): A atividade tida como classificada como sexo alternativo.
Muitas perguntas sobre a tríade São, Seguro e Consensual, o SSC têm chegado a mim. E sempre que leio ou que vou responder algo, não me limito a recitar conceitos, mas aproveito para repensa-los. Por isso estou repensando o SSC. Até porque o consensual que vem sendo pregado por alguns não é o consensual que eu vejo como o aplicável ao BDSM.
Tenho lido em muitos lugares que consensual é se discutir o que vai ser feito em uma sessão. O “submisso” diz o que “gosta” e o “dominador” obedece. Será que consensual é a submissão do dominador às vontades do escravo? Se for isso, eu não sou consensual.
Tenho ouvido que tudo que vai se fazer numa sessão deve ser combinado antes pelos parceiros. O “dominador” diz ao “submisso” o que gostaria e ele “autoriza” ou não e definem o “script” da “cena”. Será que consensual é a transformação de BDSM em teatro? Se for isso eu não sou consensual.
Tenho tocado em alguns “escravos” que defendem a posse de seus “donos” reclamando que eles não podem ter outros escravos, pois isto não é consensual. Será que consensual é transformar BDSM em casamento? Se for isso eu não sou consensual.
Tenho no paladar o amargo gosto de um BDSM “politicamente correto” onde o jogo é transformado em pantomima. O prazer está no “fake” transformando o BDSM num produto de mídia. Será que consensual é por uma pimentinha na baunilha? Se for isso eu não sou consensual.
Tenho cheirado uma vontade de conduzir o BDSM a uma plataforma onde a “moral” vigente possa conviver com algo até então execrável. Enfraquecer o sentimento para ficar mais fácil mata-lo. Será que consensual é transformar BDSM em perfumaria? Se for isso eu não sou consensual;
Li com a visão. Ouvi com o ouvido. Toquei com o tato. Tive o paladar. Cheirei com o olfato. Usei os sentidos. Sentidos. Senso. Sensual. Eu sou sensual e ser sensual é usar os sentidos. Para mim, BDSM deve ser São, Seguro e Sensual, SSS. E isto tem uma abrangência muito grande.
Sensual deve ser toda a situação que envolve os parceiros. Caso contrario, vira carnificina. Vira bandalheira, abuso, desrespeito. Sem sensualidade passa a ser Brutalidade, Despotismo, Sacanagem, Maluquice.
A sensualidade deve ter origem no bom. Naquilo que é bom para os parceiros. Naquilo que é bom para cada um Este Bom Senso deve nortear toda e qualquer relação e quanto mais intensa é a relação, maior deve ser também o Bom Senso. E uma das características do BDSM é a intensidade.
A sensualidade deve ser comum. Algo que é sensual para mim, não é obrigatoriamente sensual para o meu parceiro. Tenho um amigo muito querido, cujas idéias me fazem pensar muito, que adora cheiro forte de chulé. Isto é muito sensual para ele. Não é para mim. Nossa sensualidade não é comum. Jamais seriamos parceiros. Eu e ele não temos senso comum. Não temos consensualidade. Ser consensual é ter senso comum.
Então, pensando e sentindo tudo isso, refletindo que sensualidade é mais amplo que consensualidade, e que conseguiram desgastar e deturpar o sentido de consensual, passo a ter pra mim como tríade o SSS. São, Seguro e Sensual. Quem concordar, me acompanhe. Quem não concordar, mostre-me outro caminho. Estarei sempre pronto a repensar...
Klaus
Posted by MasterJB

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