Para os quarentões como eu, eu chamaria esse artigo aos moldes do Jornada nas Estrelas: “Devolução de coleira, a fronteira final”; para os mais novos que não tiveram a chance de assistir às aventuras de Kirk, Spock e demais e aproveitando o ambiente de ação cidadã, eu diria que esse artigo chamaria “submiso, saiba seus direitos”.
Falando sério, na vivência que tenh do BDSM, sempre é exaltado os direitos e prerrogativas do Dominante: porque o Dominante pode decidir tudo em relação ao submisso, porque ao Dominante cabe escolher o lugar onde a sessão ocorrerá, porque ao Dominante cabe a escolha das práticas e por aí vai. Ninguém nega a precedência do Dominador ou Domme sobre a vida e relação do submisso, o que seria uma imensa bobagem.
No entanto, convém refletir: se assumimos a relação SM como tal, ou seja, um processo de interação dado em bases estabelecidas de antemão, provindas de uma negociação (que esperamos seja bem feita), espera-se que as bases que foram assentadas sejam mantidas e que haja algum nível de satisfação mútua e respeito ao indivíduo, tanto ao Dominante quanto ao submisso.
Sou um daqueles que não hesitaria em exercitar minhas prerrogativas de Dominante: jamais admitiria que minha submissa adotasse qualquer postura inconveniente, cometesse deslizes de conduta, enfim, não fosse digna de minha coleira.
E a contraparte? O quanto o Submisso deve suportar de inconveniências? Ressalte-se que eu não admito, e falo em causa própria, que a relação estabelecida careça tanto de interação que entre as partes a ponto de que não haja uma observação e que não se tenha conhecimento das necessidades, limites e , porque não dizer, inclusive vontades dos que compartilham conosco essa estrada.
Assim sendo, não me parece complicado que haja uma “acomodação” entre a extensão do poder do Dominante e o que na verdade o submisso tem como seus princípios porque, afinal, o ser humano que serve deve ser respeitado e exaltado em sua sublime entrega.
E quando isso não acontece? Como dissemos, ao Dominante cabe tomar a coleira do submisso que não o serve condignamente. Da mesma forma, o submisso não deve apassivar-se tanto a ponto de violentar-se em nome do serviço ao Dominante, à medida que a entrega é algo de livre exercício da vontade, uma opção sublime e consciente, um desvelo que avoluma-se à partir da clara consciência de que não há outra alternativa senão colocar-se fisica e espiritualmente de joelhos frente ao Senhor ou Senhora.
Os eventuais abusos por parte do Dominante,  e não estou dizendo o rigor e intensidade de práticas já que isso faz parte do jogo, e que torne a convivência insustentável, deixará ao submisso a única possibilidade de devolver a coleira já que não a conseguirá honrar e a cujo Dono ou Dona não conseguirá servir com a qualidade que o dignifica como submisso.
A entrega de coleira é, portanto, um gesto de dignidade e que não precisa ocorrer apenas nos casos que expusemos. Em qualquer percepção na qual não haja clareza que o servir seja feito em bases ótimas e esperadas pelo Dominante, declarar-se incapaz de cumprir o que se quer é um gesto que dignifica o submisso já que honra tanto a coleira que serve com o nome que tem.
Ressalte-se também que caminhar nas bases da honestidade, clareza e respeito sempre fazem desse momento algo que, por mais doloroso que seja, constitua-se como o final de uma relação que , indubitavelmente, ensejará boas lembranças e a certeza de que, até onde foi possivel, foi uma relação que apenas trouxe frutos, ensinamentos e lições para as proximas relações , aperfeiçoando o servir tanto quanto o Domínio e nos fará crescer como seres humanos dentro desse imenso mundo que é o BDSM.